OLHAR DE ANJO

Sou aquele que foi abandonado,
maltratado,
humilhado,
mutilado,
esquecido ...
Se algum dia tive um lar,
não tive alguém para me amar.
Tive meu sossego dirimido,
e do mundo excluído
Já no beco morando,
pus-me a chorar clamando
para um novo dono me encontrar,
e quem sabe me albergar.
Pessoas passam por mim sem me ver.
Sem sequer perceber,
o quanto dói um abandono
por aquele que se dizia meu dono.
Não tenho voz para rogar,
apenas um olhar,
OLHAR DE ANJO para dizer
Que tenho direito de viver.
E depois de tanto sofrimento,
alguém observou meu lamento,
E me trouxe para este provisório lar
Que conseguiu meu medo aclarar.
Hoje sou amado, mas é impossível esquecer
que alguém tentou minha alegria fenecer,
mas continuo com o OLHAR DE ANJO nessa jornada.
Aguardando definitiva morada.
VIDA DE POETA

Quando amanhece, acende a lua.
É com ela que busca inspiração.
É com ela que trabalha a versificação.
Saindo em busca de rima em qualquer rua.
Sonha poeta, sonha ...
Que poder é esse de mudar a realidade?
Lembrando Pessoa que o poeta é fum fingidor
Que finge tão somente que é dor,
sem comprometer sua identidade.
Rima poeta, rima ...
Peço aos Céus que no meu passamento,
A poesia me siga em disparada,
E mesmo distante seremos dupla ensolarada,
compondo o amor ou o lamento.
Sonha poeta, sonha ...
Bardo desenhista de sensações,
Chora e ri no mesmo tempo,
que compõe uma estrofe flutuante,
inserindo em versos suas emoções.
Rima poeta, rima ...
É impossível a lágrima dele secar.
Para o clímax é adubo vital,
é forte sentimento colocado em nau
para em algum porto distante atracar.
é forte sentimento colocado em nau
AFASTA-TE

Insana sensação aparecendo,
amolecendo os tijolos já firmados.
Talvez tu nem estejas percebendo
que os sentidos estão balados.
Não posso te querer, caro doutor,
mas ao mesmo tempo balanço
a cada palavra desse autor.
E assim, corro sem descanso.
E no silêncio do meu querto,
busco teorias para te desviar
da sensação que permeia o coração farto
de não conseguir amar.
Paradoxal sentimento em inoportuna hora,
desmoronando o que já estava alicerçado,
confundindo o coração que já chora
por aturdir o trajeto ora traçado.
E ao pensar em tua boca me tocando,
arrepia-me a alma endurecida.
Sonhar com tuas mãos me entrelaçando,
acende minha tentativa garrida.
Mesmo assim vou te desviar.
Somos corpos distantes.
Não quero mais valsa a me embalar,
e nem primaveras oscilantes.
PESO

Peguei um pedaço de jornal
E um barco montei.
Até mesmo uma vela ornamental,
num pequeno mastro coloquei.
Nele, um pouco de mim estava.
Com um misto de tristeza e esperança,
meu mastro eu carregava
e o olhava como uma criança.
Eram sonhos, desejos de felicidade,
mágoas e rastros de desilusão.
Farelos dos cristais da minha idade,
espalhados no meu coração.
E decidida fui ao mar,
na tentativa de tudo esquecer.
Queria ver o barco já pesado afundar.
Queria ver as poderes sementes perecer.
SÓ NA POESIA

Quem sonha com um grande amor?
Amor é ligeiro momento,
É voo de condor,
É fonte de lamento.
Então, freias teu rugido.
Retenhas tua graça
e não espere por um sim fingido
e nem vinho em bela taça.
Só sei fazer amor em verso
escrito com Nanquim,
onde transformo o verbo falso,
em presente para mim.
E na conclusão de uma estrofe ardente,
Vibro com o amor descrito,
Gozo com a rima latejante
E derreto-me em sorriso infinito.
VAZIO

Vejo o sol se pôr
e a angústia correr.
Sinto no peito a dor
De nada acontecer.
Nem terra, nem céu
podem denunciar
meu coração coberto com véu
que teima em funcionar.
O grito que agora ensaio,
sufoca-me pela madrugada.
Trava-me as pernar ... e caio
no chão frio, na noite gelada.
Já não posso sequer ver
minha imagem no espelho refletir.
Não sinto mais o calor do amanhecer.
Só a solidão a me punir.