terça-feira, novembro 18, 2008

Alberto Caeiro






Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama.

Nem por que ama, nem o que é amar...”
“Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.”

quinta-feira, novembro 13, 2008

Casa



Na hora de escolher o chão,

O critério foi de antemão,

O mais rigoroso possível,

Pois serviria de esteio irreversível.

...

As paredes foram subindo,

E meu coração foi se abrindo.

Era lindo ver tudo aquilo crescer,

E em pouco tempo poder ali viver.

...

Que lindo! Todas as cores se harmonizavam,

E os mais famosos arquitetos admiravam.

Na parede o destino pintou uma flor.

Linda, viçosa, cheia de vigor.

...

Doce morada, aqui quero viver.

Com a desventura irei romper.

Só ar puro irei respirar.

Para poder meu suspiro novamente escutar.

Ígneo Fim


Terra pura aguardando o semear,
Planeja nesse campo medrar,
Verdes absolutos esse campo cobrir,
Pássaros a voar sob a flor que irá abrir.
...
Raios de sol para aquecer,
Em seguida a chuva para umedecer
E fazer a semente brotar,
Para tão logo a terra se vangloriar.
...
Em pouco tempo, o nada que era
Tornou-se campo florido na primavera.
Lindo e verdejante ...
Vida pura, energia radiante.
...
Tal qual uma deslumbrante pintura ...
Nada ofuscava aquela formosura ...
Oh panorama de alta contemplação,
Na verdade, sofismas do meu coração.
...
Mas um ruído inesperado minha mente desvia.
Era o velho vulcão que outrora adormecia,
Mostrou logo seu olhar enfurecido.
Irritado, queria tudo destruído.
...
Não pestanejou e a primeira lava liberou,
Alta e imponente ao paraíso se empinou,
Objetivava a tudo devastar,
E ao lindo verde acinzentar.
...
E assim foi! Lavas liberadas ...
Plantas desesperadas
Olhavam aturdidas toda a destruição,
E inertes, aguardavam a finalização.
...
Em pouco tempo, lindo quadro virou carvão !
...
Tudo se acabou!
Mas a energia da pureza ficou.
Nem mesmo o austero fogo pôde acabar
Com o que já foi vida e soube encantar.