sexta-feira, agosto 18, 2006

RENASCIMENTO










Na loucura deixei-me eivar,
Por pensamentos errôneos, até te ocultar.
Empunhei irracionalmente meu forcado,
A fim de te ver afastado.

O cravo seco se mostrava morto.
Esquecido no imo do meu porto.
Ou talvez apenas guardado.
No cume do meu sonho alado.

Mas subitamente teu perfume volta a me assolar,
Inútil tentativa minha de esquivar.
Tua energia viva e pueril,
Entrelaça meu coração, sugando o pensamento senil.

Relembrei cada pétala rutilante ...
E ainda atônita, pensei por um instante ...

quinta-feira, agosto 03, 2006

Tributo a um cão








O mais altruísta dos amigos que um homem pode ter neste mundo egoísta, aquele que nunca abandona e nunca mostra ingratidão ou deslealdade, é o cão.
O cão permanece com seu dono na prosperidade e na pobreza, na saúde e na doença. Ele dormirá no chão frio, onde os ventos invernais sopram. Quando só ele estiver ao lado de seu dono, ele beijará a mão que não tem alimento a oferecer, ele lamberá as feridas e as dores que aparececem nos encontros com a violência do mundo. Ele guarda o sono de seu pobre dono como se fosse um príncipe. Quando todos os amigos o abandonarem, o cão permanecerá. Quando a riqueza desaparece e a reputação se despedaça, ele é constante em seu amor como o sol na sua jornada através do firmamento. Se a fortuna arrasta o dono para o exílio, o desamparo e o desabrigo, o cão fiel pede o privilégio maior de acompanhá-lo, para protegê-lo contra o perigo, para lutar contra os inimigos. E quando a última cena se apresenta, a morte o leva em seus braços e seu corpo é deixado na laje fria, não importa que todos os amigos sigam seu caminho: lá, ao lado de sua sepultura se encontrará seu nobre cão, a cabeça entre as patas, os olhos tristes, mas em atenta observação, fé e confiança, mesmo à morte.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Uma Carta












A quem possa interessar,
Não me chamo Maria nem Graça.
Meu endereço não queira desvendar.
Tão pouco me traga refresco em taça.

Não venha a pé nem a cavalo.
Não vista regata nem terno.
Não quero um nobre nem um vassalo.
Muito menos um amor eterno.

Guarde seu verbo, sua inspiração.
Reprima todo desejo carnal.
Em lápide distante enterrei meu coração.
Sem cruz nem sinal.

Se conseguires com um beijo a pedra dividir,
E com um afago a neve aquecer,
Venha sem tua alma despir.
E aguarde o sol na noite aparecer!

No espelho










Lavei meu rosto com cristal,
Na esperança de me ver, afinal,
Ou talvez de sentir minha alma renascer,
E através do espelho perceber.

Subitamente, linhas e cores foram surgindo.
Minha pele clara, sumindo.
Outra imagem se formou,
De um vermelho vivo, minha boca pintou.

Não era mais eu naquele momento.
Viva energia sucumbiu meu lamento.
O palhaço sorria ...
Minha alma acendia ...

Uma overdose de alegria me contagiou.
A menina de outrora me fitou.
E sorriu! Vi minha alma refletida naquele instante...

Mas a noite chegou!
Rapidamente a visão ofuscou.
Veio o frio e minha imagem levou.
O espetáculo ... acabou!!!

Ela









Esse poema fiz para minha amiga, minha mãe. Agradeço a Deus por todos os ensinamentos que me deu. Mulher de fibra, guerreira. Sinto-me honrada por tê-la como mãe. Esta é a primeira vez que nos separamos, pois mudei de cidade. Sinto muitas saudades dela.

Conheci uma estrela que sempre brilhou.
E no caminho de Deus me guiou.
Deu-me sua luz, sua destreza.
Ensinou-me a sorrir na tristeza.

Às vezes, se transformava em flôr,
E perfumava meu pranto, minha dor.
Com o espinho pude me defender.
E o B-A-BA da vida aprender.

Cobriu-me com as águas do mar,
E mostrou-me como o oceano atravessar.
Tal qual uma fera aprendi a rugir.
E meus inimigos definir.

Na minha dor, meu remédio é tua mão.
Alívio para minha alma, paz no coração!

Reflexão









Ainda que com pernas cansadas, andarei.
Léguas sem fim nessa imensidão.
E em meu peito a certeza que Te alcançarei.
Levando meu Mestre no coração.

Se meus olhos não souberem mais chorar.
Mesmo assim eu vou em frente.
Com Tua estrela cravada a me guiar.
E o Teu nome vivo em minha mente.

E se meu coração fechar para a felicidade,
Meu sangue com frieza secar,
E meu peito romper com ferocidade,
Minha alma estará clara para Te louvar.

Não espero um motivo para sorrir.
Não espero um remédio para a dor.
Só quero Teu caminho seguir.
E colher grãos do Teu amor.

Hoje










Meses se passaram,
E de minha origem me afastaram.
Sinto falta da essência.
Pesa-me essa ausência.

Vim atrás da felicidade.
Hoje estou só nesta cidade.
Preciso de colo, de carinho
Para seguir meu caminho.

Ao som de uma guitarra busquei amor,
Mas as cordas se quebraram com furor.
Mesmo assim meu peito guarda a melodia,
De ter sido musa por um dia.

Mas ainda aqui estou em pé,
Trilhando meu caminho, envôlta em fé.
Cobri meu corpo com cimento,
E removi do coração o sentimento.

Tive que calar minha paixão.
Trancafiá-la num enorme caixão.
Para que eu possa ainda tentar,
O topo da montanha alcançar.